A justiça climática se apresenta como pano de fundo para garantir que povos indígenas tenham o reconhecimento de suas fortalezas para enfrentar as vulnerabilidades impostas pela mudança do clima. Desta forma, a implementação de políticas e ações que considerem a proteção e o fortalecimento dos seus sistemas de conhecimento e práticas agrícolas adaptativas é primordial para assegurar o direito à terra e ao bem viver integral dos povos indígenas.
● Problemas respiratórios agudos;
● Aumento de doenças transmitidas por vetores;
● Impacto elevado na saúde e bem-estar.
1.2.1 Ameaça Climática
● Aumento da temperatura média e das ondas de calor;
● Aumento da frequência e intensidades de secas;
● Aumento dos focos de calor
1.2.2 Exposição
● Povos indígenas residentes em áreas com maior incidência de fogo e queimadas.
1.2.3 Vulnerabilidade
● Acesso limitado a serviços e equipamentos de saúde;
● Ausência ou pouco acesso a recursos para combate e prevenção de incêndios;
● Áreas mais suscetíveis a queimadas.
● Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga.
1.4.1 Vulnerabilidade e exposição
● Secas mais prolongadas e intensas;
● Degradação ambiental nas TIs e entorno;
● Aumento da intensidade e incidência de queimadas;
● Baixo investimento em saúde.
1.4.2 Ameaça Climática
● Aumento na frequência e intensidade das queimadas nas últimas décadas. Projeções indicam maior risco de queimadas e os consequentes incêndios no futuro devido a secas prolongadas.
● Crianças e idosos são mais afetados.
● Aumento de acidentes com animais peçonhentos;
● Disseminação de doenças por vetores biológicos.
2.2.1 Ameaça Climática
● Alta incidência de eventos pluviométricos extremos;
● Elevação da incidência de temperaturas altas.
2.2.2 Exposição
● Comunidades indígenas podem estar mais expostas pela ausência de barreira física para evitar contato com tais animais peçonhentos e vetores biológicos.
2.2.3 Vulnerabilidade
● Práticas culturais aumentam a exposição a esses animais;
● Habitações mais permeáveis à entrada desses animais;
● Acesso limitado a serviços de saúde.
● Amazônia, Cerrado, Caatinga, Mata Atlântica, Pantanal e Pampa
2.4.1 Vulnerabilidade e exposição
● Falta de uma zona de amortecimento no entorno das Terras Indígenas;
● Mudança no padrão de chuva;
● Moradia com falhas estruturais;
● Acesso limitado a serviços de saúde.
2.4.2 Ameaça Climática
● Aumento na frequência e intensidade de calor e chuvas intensas.
● Reconhecimento e valorização dos conhecimentos tradicionais de manejo da fauna.
● Perda de cultivos tradicionais e aumento do preço dos alimentos;
● Diminuição de colheitas;
● Insegurança alimentar;
● Migração e deslocamento forçado.
3.2.1 Ameaça Climática
● Mudança no padrão hidrológico;
● Variações abruptas de temperatura;
● Maior ocorrência de vendavais.
3.2.2 Exposição
● Baixa mobilidade de comunidades;
● Baixo acesso a variedades agrícolas e a tecnologias adaptadas aos novos padrões climáticos.
3.2.3 Vulnerabilidade
● Práticas agrícolas tradicionais impactadas;
● Falta de mobilidade e estrutura de armazenamento;
● Limitações no acesso a tecnologias e recursos;
● Dificuldades de acesso a mercados.
● Amazônia, Cerrado, Pampa, Caatinga, Mata Atlântica e Pantanal.
3.4.1 Vulnerabilidade e exposição
● Degradação dos solos nas proximidades das Terras Indígenas;
● Isolamento geográfico limita o acesso a inovações tecnológicas e a assistência técnica;
● Pressão externa por mudanças no uso da terra ameaça as práticas agrícolas.
3.4.2 Ameaça Climática
● Projeções indicam mudanças significativas nos padrões de precipitação afetando diretamente a agricultura.
● Implementação de políticas públicas que garantam a segurança alimentar e promovam práticas agrícolas sustentáveis.
● Destruição de habitações, infraestruturas comunitárias e locais sagrados;
● Deslocamento forçado;
● Aumento da vulnerabilidade socioeconômica
4.2.1 Ameaça Climática
● Tempestades severas, incluindo ciclones e vendavais;
● Secas prolongadas;
● Elevação do nível do mar em regiões costeiras.
4.2.2 Exposição
● Comunidades de áreas costeiras e dependentes de transporte fluvial;
● Comunidades residindo em áreas de risco.
4.2.3 Vulnerabilidade
● Povos indígenas em áreas remotas e ecologicamente vulneráveis;
● Infraestrutura habitacional menos resistente a eventos extremos;
● Dificuldades logísticas e falta de assistência emergencial.
● Regiões costeiras e amazônica, áreas sujeitas a inundações, deslizamentos, ciclones e tempestades.
4.4.1 Vulnerabilidade e exposição
● Intensificação de eventos extremos, como inundações, deslizamentos e tempestades;
● Deterioração da infraestrutura;
● Expansão das áreas de risco pela degradação ambiental;
● Mobilidade forçada e a perda de espaços culturais e sagrados.
4.4.2 Ameaça Climática
● Aumento na frequência e intensidade de inundações, deslizamentos de terra, tempestades severas, e ondas de calor extremo nas últimas décadas.
● Implementação de planos de adaptação para o enfrentamento a eventos extremos de acordo com a realidade da região
● Escassez de água potável;
● Contaminação de fontes de água;
● Dificuldades para manter a higiene e saúde;
● Aumento de doenças relacionadas à água.
5.2.1 Ameaça Climática
● Alta variabilidade nos padrões de precipitação.
5.2.2 Exposição
● Regiões semiáridas e áreas com infraestrutura hídrica inadequada;
● Comunidades em áreas remotas;
● Infraestruturas insuficientes para lidar com períodos prolongados de seca e degradação ambiental.
5.2.3 Vulnerabilidade
● Dependências de fontes de água naturais suscetíveis a secas e contaminação;
● Isolamento geográfico e barreiras linguísticas/culturais dificultam o acesso a tecnologias de purificação e gestão de água.
● Regiões semiáridas, áreas com infraestrutura hídrica inadequada, Amazônia.
5.4.1 Vulnerabilidade e Exposição
● Aumento da vulnerabilidade das comunidades indígenas devido às secas prolongadas e a contaminação de fontes de água naturais;
● Deterioração contínua de ecossistemas aquáticos;
● Isolamento geográfico dificulta o acesso a tecnologias;
● Pressão sobre os recursos hídricos nas proximidades das Terras Indígenas.
5.4.2 Ameaças climáticas
● Intensificação das secas e chuvas irregulares;
● Maior variabilidade nos padrões de precipitação, aumentando a escassez e contaminação de água.
● Políticas públicas que promovam o acesso à água potável e a proteção dos rios e nascentes
● Interrupções no fornecimento de energia;
● Dificuldade de comunicação;
● Aumento da vulnerabilidade socioeconômica e isolamento das comunidades.
6.2.1 Ameaça Climática
● Tempestades;
● Secas prolongadas;
● Ondas de calor.
6.2.2 Exposição
● Regiões remotas e áreas com infraestrutura precária;
● Indígenas que vivem em áreas isoladas em áreas isoladas têm acesso limitado a fontes alternativas de energia e comunicação – dependentes de fontes de energia locais;
● Fauna e flora afetadas pela interrupção de energia e comunicação – sistemas de vigilância
6.2.3 Vulnerabilidade
● Povos indígenas tem dificuldade de ter a manutenção das infraestruturas de energia e comunicação;
● Dependência de infraestruturas precárias menos resilientes;
● Áreas remotas com menor acesso manutenção;
● Ausência de investimento em infraestrutura.
● Regiões remotas, áreas com infraestrutura precária.
.6.4.1 Vulnerabilidade e Exposição
● Aumento da frequência de tempestades e inundações;
● Deterioração das infraestruturas;
● Expansão da degradação ambiental expondo os povos;
● Isolamento geográfico, racismo institucional e barreiras socioeconômicas.
6.4.2 Ameaça Climática
● Aumento da frequência de eventos climáticos extremos.
● Políticas públicas para aumentar a resiliência comunitária.
● Diminuição da disponibilidade de recursos naturais para a produção de artesanato;
● Perda de mercados devido à interrupção de transporte;
● Perdas econômicas;
● Incêndios devastam áreas de coleta.
7.2.1 Ameaça Climática
● Tempestades e ventos;
● Variações de temperatura.
7.2.2 Exposição
● Comunidades que dependem da bioeconomia e produção de artesanato.
7.2.3 Vulnerabilidade
● Alta dependência de recursos naturais e práticas tradicionais que podem ser vulneráveis à mudança do clima;
● Isolamento geográfico limita o acesso a mercados e a tecnologias;
● Falta de diversificação nas atividades econômicas;
● Barreiras socioeconômicas e culturais dificultam a adaptação.
● Amazônia, Cerrado, Pantanal, Caatinga, Mata Atlântica.
7.4.1 Vulnerabilidade e Exposição
● Aumento da vulnerabilidade econômica;
● Deterioração dos ecossistemas locais, fontes de matérias prima;
● Intensificação de isolamento geográfico e invasões em Terras Indígenas e limita o acesso a mercados e tecnologias;
● Pressão sobre os recursos naturais que reduz a resiliência.
7.4.2 Ameaça Climática
● Mudanças mais drásticas no padrão hídrico afetando a produção e comercialização de artesanato – afetam a disponibilidade de matéria – prima para a bioeconomia.
● Políticas públicas que promovam a resiliência econômica e a preservação da sociobioeconomia.
● Redução da navegabilidade de rios;
● Aumento do volume de chuvas que provoca enchentes e deslizamento de terra;
● Isolamento pela dependência de rios para o deslocamento;
● Obstrução de estradas e pontes por chuvas e deslizamentos de terra – falta de acesso a serviços essenciais.
8.2.1 Ameaça Climática
● Secas mais intensas e sucessivas;
● Aumento do volume de chuvas;
● Aumento da frequência de eventos climáticos extremos.
8.2.2 Exposição
● Comunidades em áreas remotas e de difícil acesso;
● Falta de alternativas de meios de locomoção;
● Infraestrutura sensível a enchentes.
8.2.3 Vulnerabilidade
● Infraestruturas de transporte inadequados e vulneráveis à danos;
● Poucas rotas e poucos modais;
● Localização remota de alguns indígenas;
● Negligenciamento de infraestrutura de acesso a Terras Indígenas.
● Regiões remotas, com incidência de chuvas e secas intensas;
● Áreas sujeitas a desastres naturais.
8.4.1 Vulnerabilidade e Exposição
● Aumento na frequência de desastres naturais;
● Tempestades severas e ventos fortes;
● Secas prolongadas que comprometem a estabilidade do solo.
8.4.2 Ameaça Climática
● Projeções indicam maior risco de interrupções de infraestrutura devido a eventos climáticos extremos no futuro.
● Necessidade de implementar sistemas de infraestrutura resilientes e alternativas de mobilidade para garantir o acesso contínuo a serviços essenciais.
Nos últimos 15 anos, a mudança do clima tem agravado riscos significativos para os povos indígenas (Porto & Rocha, 2022), especialmente em territórios mais vulneráveis e com infraestrutura precária. Esses riscos são amplificados por eventos climáticos extremos, como secas prolongadas e chuvas intensas, colocando em evidência a importância da justiça climática (Gianini et al., 2023), visto que essas populações, embora pouco responsáveis pela mudança do clima, são as mais afetadas. A seguir, são descritos os oito riscos prioritários para os povos indígenas no âmbito do Plano Clima: Adaptação para Povos Indígenas.
O risco de aumento de doenças respiratórias, causado por incêndios florestais, tem se intensificado devido ao aumento da frequência e severidade desses eventos. O aumento da temperatura e da frequência de secas tem criado condições climáticas para o aumento da quantidade de focos de calor. A exposição à fumaça proveniente das queimadas resulta em problemas respiratórios agudos, especialmente entre crianças e idosos, bem como aqueles que vivem em áreas suscetíveis a incêndios florestais. As mudanças nos ecossistemas também agravam a incidência de doenças transmitidas por vetores (Barcellos et al., 2009; Fernandes et al., 2021). Na medida em que se tornam mais frequentes e intensos, os impactos dos incêndios florestais aumentam a vulnerabilidade dos povos indígenas, com uma maior exposição aos patógenos e o acesso limitado aos serviços de saúde necessários. Em cenários de seca, o uso tradicional do fogo, caso descontrolado, pode também acirrar esse risco.
Já o risco de aumento de acidentes por animais peçonhentos e disseminação de doenças por outros tipos de animais (vetores biológicos) está associado ao calor excessivo e às chuvas intensas, que alteram o habitat desses animais, levando ao aumento de acidentes e contaminação (Martinez et al., 2018; Ford, 2012; Zacarias & Loyola, 2018). A degradação ambiental, por sua vez, provoca a perda de áreas naturais, expondo populações indígenas que habitam territórios cercados por desmatamento. A ausência de uma zona de amortecimento ao redor das Terras Indígenas agrava essa exposição, contribuindo para o desequilíbrio ecológico. Indígenas que vivem em áreas periurbanas também enfrentam riscos significativos, especialmente por residirem, muitas vezes, em condições habitacionais precárias e sem infraestrutura adequada. Além disso, o acesso limitado a antídotos e serviços médicos aumenta a vulnerabilidade dessas populações (Ford, 2012; Zacarias & Loyola, 2018; Needleman et al., 2018). Com o agravamento da mudança do clima, a tendência é de que esses riscos se intensifiquem, favorecendo a proliferação desses animais.
O risco de perda da produção de alimentos é uma preocupação crescente, já que a mudança do clima afeta diretamente as práticas agrícolas tradicionais (Altieri & Nicholls, 2013; Altieri et. al., 2015). Secas prolongadas, chuvas intensas e eventos climáticos extremos têm prejudicado a produção agrícola. Povos indígenas têm uma relação forte com a agricultura tradicional, portanto, a falta de acesso a tecnologias, a recursos para adaptação às novas condições climáticas e o isolamento de comunidades localizadas em zonas remotas pode resultar em insegurança alimentar (Altieri & Nicholls, 2013; Altieri et al., 2015; Jamil et al.; 2021; Singh & Reddy, 2013) e na capacidade de subsistência dessas comunidades.
Eventos climáticos como inundações, incêndios florestais, tempestades, deslizamentos de terra e secas prolongadas resultam no risco de perda de casas, espaços sagrados e mobilidade forçada para diversos povos (Gray et al., 2012; Wang et. al. 2021; Costa & Silva, 2021), incluindo indígenas. Essas populações, muitas vezes localizadas em regiões remotas compostas por extensas áreas com acesso restrito sendo necessário o uso de barcos, aviões e carros apropriados para se locomover internamente, veem suas habitações e infraestruturas tradicionais destruídas por esses desastres, o que agrava sua vulnerabilidade socioeconômica. A perda de espaços sagrados representa um impacto cultural profundo, enquanto a mobilidade forçada ou o isolamento geográfico prejudica o modo de vida e a conexão com a natureza. Com a intensificação desses eventos, há uma tendência de aumento da exposição a esses riscos (Debortoli et al., 2024), sobretudo em áreas de transição ecológica e sem infraestrutura de enfrentamento adequado.
Outro risco é a interrupção do acesso à água, comprometido por secas prolongadas, contaminação de fontes hídricas e chuvas irregulares (Cantillana & Iniesta-Arandia, 2022; Opare, 2018; Basel et al., 2020; Caretta & Morgan, 2021). Povos indígenas, que dependem majoritariamente de fontes naturais como rios e nascentes, são particularmente afetados. A falta de infraestrutura de captação e purificação de água, somada ao isolamento geográfico de muitos povos, agrava esse cenário, resultando em crises hídricas que impactam a saúde humana, animal e a segurança alimentar. Além disso, há também o risco de interrupção de acesso a recursos essenciais, como energia elétrica e comunicação, devido a tempestades, deslizamentos e inundações. Essa situação impacta diretamente o bem-estar e a integração dessas populações, que já lidam com desafios logísticos e isolamento socioeconômico.
A mudança do clima também representa um grave risco para a bioeconomia e a produção de artesanato, atividades que dependem da coleta da sociobiodiversidade, como fibras, sementes e plantas, incluindo aquelas para uso medicinal (Sambo, 2014; Schlenker & Lobell, 2010; Silva et al., 2019; Bellon et al., 2011). Secas prolongadas, inundações e incêndios florestais afetam a disponibilidade dessas matérias-primas, comprometendo a subsistência econômica de muitas comunidades indígenas. Além disso, o isolamento geográfico e a falta de diversificação nas atividades econômicas aumentam a dependência dessas práticas. Somado a isso, o risco de interrupção do acesso a serviços essenciais, como saúde e educação, causada pela destruição de pontes, bloqueio de estradas e outras infraestruturas de transporte, agrava ainda mais a situação. Essas barreiras limitam a mobilidade e isolam as comunidades (Nasr et al., 2019; Turyasingura et al., 2023), dificultando a resposta a emergências e a continuidade de suas atividades cotidianas, ampliando a vulnerabilidade socioeconômica e ambiental dessas populações.